sábado, 14 de julho de 2012

Vou  começar hoje este blog, por isso cumprimento todos os leitores e quem nele quiser interferir e fazer comentários.

Agradeço que não:

seja utilizada linguagem grosseira, 

sejam feitas referências pejorativas a aspectos pessoais ou defeitos físicos das pessoas a que eventualmente se refiram, 

não promovam a instigação, ou mesmo a defesa de violência sobre pessoas e animais,
 
 seja feita, de qualquer forma, a apologia de doutrinas nazi-fascistas.

O meu principal interesse pela criação deste blog é a divulgação de contos que vou escrevendo e, eventualmente o estabelecimento de diálogos que proporcionem a crítica, comentários, discussão, etc. com pessoas interessadas pelo mesmo tema.

 Vou começar com o choque de um conto terror para que é preciso ter um certo estômago. No entanto, hoje, só publicarei um quarto do mesmo, deixando o restante para outras ocasiões, assim a modos como se fazia antigamente nos folhetins que se publicavam nos jornais, embora de romances se tratassem e não contos.

 Se tiver tempo e paciência publicarei outros géneros. até mesmo mini-contos. A ver vamos.

Lá vai então:




UMA ESTRANHA FORMA DE AMAR


Q
uem estiver no cimo do elevado cerro, não só pode ver 360 graus de uma deslumbrante paisagem, como pormenores dela, de não menor interesse de “per se”: longe o serpear do rio, fita de estanho polido, exibindo de novo, a beleza que a poluição toldara, e que nos equinócios reflecte o Sol tal qual ele é na Primavera e no Outono, ferindo o olho até à cegueira, como punção em brasa, sempre desafiado, e sempre ganho pela estrela espelhada. Desde o rio até à orla da povoação, extenso terreno, antecipando a planície, variado nas suas cores e relevos, pequenos montículos entre lisuras, em ondulações de tons de verde e castanho, tantos, como não se suporia existirem; daí até logo abaixo da visão do observador, o generoso plano, verdejante, cultivado em quadrícula de imperfeita geometria, sem humana intenção da perfeita harmonia das cores; arrumada a um canto, a aldeia de Sta. Maria-a-Nova; o nome informa da existência, anterior de outra Sta. Maria, sob ela, em que todos crêem, por informação oral através dos séculos que, portanto, ninguém poderia ter visto, desaparecida pela erosão de tempos imemoriáveis; talvez um dia, os seus restos venham a ser encontrados e estudados por quem os possa amar e a venha a designar por Sta. Maria-a-Velha.
     Com apenas algumas dezenas de casas, tantas quantas várias gerações sempre contaram, antiquíssimas (assevera idónea monografia de ilustre filho da terra), num desalinho de arrumação, como todas as vetustas pequenas povoações onde de arquitectura, o obreiro, apenas sabia estar a construir, à mão, o seu próprio tecto e, de urbanização, devia ela obedecer ao melhor aproveitamento do terreno, sem a preocupação de alinhamentos fosse com o que fosse.
 Afastada, da metade da encosta para o sopé, vê-se uma meia dúzia de casas mais recentes, de emigrantes, vazias, para onde pensam ir viver no regresso, já fora da chamada zona histórica, em zona tida como não pertença a Sta. Maria-a-Nova, como arrabalde. Foram construídas em terreno urbanizado pela Câmara Municipal, na esperança de a pouco e pouco, a já velha e desordenada Sta. Maria-a-Nova, viesse a ser substituída por uma Sta. Maria-a-Novíssima ou de designação mais pagã.
 Tal presunção disso não passou porque idos que foram mais de vinte anos desde a última construção, outros emigrantes, com vistas mais alargadas ou que julgavam tê-las, foram construir para o Algarve.
  A meia encosta, também, mas a Norte, cujo acesso, vereda selvagem, feita pelas camionetas de material de construção, por onde só elas, um todo-o-terreno ou peão robusto podem singrar, está uma casa muito mais recente que as outras, banal, sem característica que lhe confira algum interesse, edificada a desejo de um homem que nela viveu poucos anos, mantendo o mesmo caminho, que de caminho nunca mereceu o nome.
 Estranha escolha de local, na hipotenusa do morro, virada a norte, no meio de árvores e matagal, impeditivos da visão do céu e da terra, onde não bate o Sol, invisível aos olhos da povoação.
 No início da construção da casa (que o povo designou por vivenda), vária gente rondou o local para ver como era e contar a quem não podia lá ir, mas quando a novidade deixou de o ser, passou o interesse reavivado quando se certificaram de o proprietário estar a chegar, tentando conhecê-lo, corpo estranho em organismo vivo que, seria rejeitado, ou absorvido ou enquistado; foi isto que sucedeu, o homem passou a ser um quisto benigno, tolerado por não incomodar, nunca malquisto, mas nunca pertença da terra, o que não queria dizer que não houvesse interesse em saber da vida daquele homem.
 Depressa viram, não haver por parte dele uma procura de integração em Sta. Maria-a-Nova, nem cedência de sua vida, mantendo um certo distanciamento das pessoas, embora cortês e simpático: cumprimentava toda a gente e não raro, mas de passagem fugaz, ia ao café-taberna (gazeta da terra onde tudo se diz e se ouve e a vida alheia não o é, por ser de todos), tinha conversa agradável com qualquer, sem ir, todavia, além de impressões sobre o tempo, o futebol e pouco mais, concordando mais do que se opondo a opiniões dos outros; o decorrer do tempo, aumentava a ideia de ser pessoa misteriosa: não falava de si, de onde viera, da família se a tinha, não dava, sequer, pequeno azo a conjecturas nem mostrava uma pontinha do oculto por onde se pudesse pegar para se inquirir de sua vida, que satisfizesse a curiosidade geral.

Bastante tempo após ter chegado e inesperadamente, disse na taberna, a dois homens, número suficiente para a informação chegar a todos os habitantes, no mesmo dia, que era médico, retirado por vontade própria, meses antes de ir para ali morar; foi um enorme sucesso, e tão pequena notícia deu para se fazerem as mais variadas suposições, tornando-se “verdadeiras”, algumas delas. Mais tarde, disse já não ter pais, motivo pelo qual procurara, para viver, aquela zona que apreciava pelo sossego e beleza. (Estranha maneira de admirar esta, numa casa donde nada se via). Mais um assunto para quebrar a monotonia de Sta. Maria-a-Nova e andarem os bisbilhoteiros a propalar a novidade, a urdir histórias. A derradeira informação foi a predilecção que o homem, agora doutor Jesuíno (de quem nem o apelido se sabia) gostar de cozinhar e cultivar produtos hortícolas.
 Poderiam estas revelações ser deixas para as pessoas começarem a fazer-lhe perguntas, terem conhecimentos sobre ele, mas havia sempre uma barreira de permeio, desanimadora daquele propósito.
                                         o O o

A mãe de Jesuíno, não tinha propensão para o matrimónio; casou tardiamente por insistência dos pais, acenando-lhe com os teres e haveres de um amigo da casa, que lhe proporcionariam uma boa vida, salvaguardando-a de fatal miséria, se ficasse só, quando eles morressem; o que o marido possuía gastou-o quase todo, com mulheres para suavizar a vida que levava com a sua. Também tardiamente, como não podia deixar de ser, foi mãe, contrariada por sê-lo de um rapaz.
 Era uma mulher alta gorda, comilona, autoritária, impondo a sua vontade ao marido (falecido precocemente, para bem dele) e ao filho, castigando-o com severidade se tentava, ao menos, desobedecer-lhe, sem outra justificação para o cumprimento da ordem que não fosse: “porque eu quero”. De tal forma foi “trabalhado” o rapaz que, embora dotado de inteligência e por isso com ideias e vontade próprias, carecia de ousadia e coragem, para fazer frente à mãe. Não bastara isto à megera, que mãe não parecia, azucrinava o filho, desde muito novo (que é de menino que se torce o pepino), com sermões, relatos de casos ditos verídicos para ilustrar o que asseverava, acerca da maldade sofridas pelas pobres mulheres às mãos dos homens, seres abjectos que delas só queriam tirar prazer conseguido pela violência e nunca por consentimento; desejava que o filho não fosse assim e instava para seguir as suas ordens, por serem para seu bem; não se aproximasse das mulheres para não se apaixonarem por ele o que receava ser fácil sendo ele tão bonito rapaz e depois cair na tentação de as violar, como sempre sucedia; “olha que mesmo lá do céu, estarei a ver o que fazes e mandarei que sejas castigado”. (Acreditava poder ocupar um lugar junto do criador e de nele mandar). Até no momento da morte, lúcida, continuava a martelar nas mesmas teclas: agarrou a mão do filho, não como gesto de despedida do ente, o mais amado, mas como a tentar levá-lo consigo, para o ter eternamente sob o seu comando.
 Jesuíno invejava os companheiros de escola, sabendo do carinho de suas mães.
 Foram tais a manipulação e o esmagamento de uma personalidade em construção, começadas quando o sexo não era ainda, sequer um mistério, mas uma inexistência, que na cabecinha de Jesuíno, qual cera virgem, se foi gravando terrível medo por íntimas relações com mulheres (só mais tarde sabidas quais), nunca conseguindo, ir além do convívio social e mesmo esse, superficial, com elas. Porém, não tinha repulsa pelas mulheres e até, por vezes, traído pelas cegas hormonas, desejava-as, mas logo, por condicionalismo se travava luta feroz entre o desejo e o medo, que levava a palma àquele.
 Aspirava pela morte da mãe, sem peso na consciência, não para ter a possibilitar de mudança da sua relação com as mulheres (nunca lhe interessaram verdadeiramente, ao ponto de lhe parecer inato e não adquirido o que por elas sentia), mas para se livrar do seu autoritarismo e poder fazer outras coisas que bem lhe apetecessem, porquanto, em vida dela, sair de casa era impensável.
 Com o passamento da mãe, já adulto feito e com profissão, começou a tomar decisões sobre a sua vida sendo as primeiras deixar a medicina, sair de Lisboa e ir para o campo. Quanto às mulheres, deu-se o previsto, já porque o pepino torcido de pequenino, torcido fica, já porque a mãe não morrera definitivamente, continuava presente a olhá-lo, sabia-se lá de onde, atenta vigilante sem quartel. De nada valeram os apoios que procurou em analistas, psiquiatras e psicólogos, na busca da normalidade.
 Sempre experimentara sentimentos ambivalentes por sua mãe: ódio, principalmente, ódio, mas também, amor. Além disso, e principalmente nos momentos em que eia era mais áspera, a despeito disso, dizia-se, crendo ou enganando-se que era impossível não ser amado, como todos os filhos.
Vezes houve que sonhou…sonhou sentar-se no regaço da mãe, afundar-se no acolchoado e, com certeza, macio dos seus seios, rodear-lhe o pescoço com os braços, sentir os dela a cingi-lo, receber os seus beijos na cabeça, no rosto, e adormecer, naquela concha de sedas e carícias na certeza de ali nada de mal lhe poder acontecer.


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